ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
  Código Aberto
Início > Blogs > Código Aberto + A | - A
   
O debate sobre o diploma pode nos ajudar a entender melhor os novos desafios do jornalismo contemporâneo
Postado por Carlos Castilho em 9/10/2008 às 12:27:14 AM
 
 

A conversa iniciada no post anterior sobre a questão da obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão de jornalista merece continuar, não com o intuito de polemizar, mas para buscar esclarecer um tema que ainda está carregado de muitas dúvidas.

 

A grande maioria dos comentários vai direto para a comparação entre o jornalismo e profissões como médico, engenheiro e advogado.  Mas para comparar precisamos saber primeiro o que entendemos por jornalismo, porque senão caímos na expressão "comparar alhos com bugalhos".

 

O jornalismo é uma atividade na qual um profissional desenvolve habilidades e competências.  A habilidade de comunicar por escrito, sons e por imagens, notícias e informações que ajudem os cidadãos a tomar decisões conforme os seus interesses e necessidades. Competência para transformar esta habilidade em conhecimento e em projetos lucrativos ou não. A missão do jornalista é comunicar.

 

Até agora a função de comunicador era restrita a um reduzido número de pessoas porque as ferramentas de comunicação eram limitadas pelo fator econômico. As pessoas comuns não podiam ter a posse de um jornal, ou obter uma concessão de emissora da rádio ou de televisão.

 

Todas essas atividades exigiam e ainda exigem recursos, o que as tornou privativas de empresas e organizações com capital para investir. Os comunicadores se tornaram assalariados destas empresas que passaram a determinar o que, como e para quem comunicar, tendo em vista os seus interesses financeiros necessários para a sobrevivência econômica.

 

Esta é a base sobre a qual se apóia o conceito de profissão de jornalista. E até ai não há diferenças radicais entre um jornalista, um médico e um engenheiro, a não ser as suas habilidades e competências.

 

O problema é que a internet mudou o contexto da comunicação, no momento em que os usuários passaram a poder publicar da rede. Com isto milhões de pessoas assumiram um papel proativo na produção de dados, notícias e informações.

 

As demais profissões também foram afetadas pela internet, mas nenhuma delas com a intensidade e profundidade do jornalismo. Nesta realidade já não é mais possível falar em reserva de mercado para o jornalista porque significaria tentar frear a inovação e o livre acesso aos meios de comunicação para resguardar uma exclusividade no manejo da notícia.

 

A internet também mudou o caráter da notícia. Ela já não é mais um produto acabado, mas um processo em constante evolução e modificação graças ao aporte da novos dados fornecidos por cidadãos de todos as categorias.

 

Gostemos ou não, o jornalista perdeu a exclusividade no feijão com arroz da profissão, ou seja, a busca e publicação da notícia. Mas em compensação, a internet gerou novos desafios para o jornalismo.

 

Desafios que têm a ver com o processo de capacitação dos cidadãos comuns no manejo da informação, com a produção de narrativas jornalísticas multimídia, no desenvolvimento de novos sistemas de recombinação de informações, sem falar na busca de novos mecanismos de certificação de credibilidade.

 

Estes são apenas alguns dos  reais problemas da profissão e não o debate se o diploma é ou não é obrigatório ou se o jornalista é igual ao advogado ou engenheiro. São questões desafiam a nossa capacidade criativa e a nossa posição diante da demanda da sociedade por novas formas de lidar com a informação. 

 

 

Comentários (8)
Comentar
Compartilhe
[imprimir]  [enviar por e-mail ]  [link permanente]
   
   
Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime.
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Ricardo  Frugoli, Publicitário (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 23/10/2008 às 1:17:18 AM

Acho que ainda falta uma questão intocada. Talento. Isso é essencial em qualquer profissão. E o mercado de comunicação de um modo geral está sendo inundado todos os anos com pessoas desavisadas do que o mercado cobra. Não diplomas. Mas talento, criatividade. É nestas horas que os diplomas viram papel de parede. E dos mais caros, pois foram investidos anos sem uma orientação adequada. Não existe faculdade que possa fazer isso, se não houver sequer uma vocação, por menor que seja. Mas elas continuam formando milhares de profissionais todos os anos mesmo assim. É por isso que a conta não fecha. O talento surge de onde menos se espera. Precisamos de idéias novas, de pessoas criativas, e o ambiente acadêmico não é uma área de preservação e/ou restrição desta espécie. É mais que justo reconhecer um profissional que recebeu uma formação técnica, mas não podemos deixar ou descartar pessoas talentosas e criativas que não tiveram esta formação. Precisamos das idéias e dos talentos de todos.
Luciano  Prado, advogado (Rio de Janeiro/CE)
Enviado em 13/10/2008 às 11:02:50 PM

O nobre jornalista esqueceu-se de abordar ponto importante sobre o tema, sem o qual tudo se esvai; o jornalismo e a comunicação com responsabilidade.
Haroldo  Mendes, Jornalista (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 13/10/2008 às 10:26:48 PM

O Castilho acertou na mosca! Enquanto essa turma retrógada da fenaj e cia ficam aí tentando impor uma reserva de mercado, a internet avança a cada dia. No mundo de hoje é ridículo exigir diploma para escrever e se expressar. Parem de andar na contra-mão da história!!!
Luciano  Porciuncula Garrido, psicólogo (bsb/DF)
Enviado em 13/10/2008 às 9:49:28 PM

O Castilho tem absoluta razão. A questão do diploma é um assunto menor, quase superado. A polêmica em torno do tema é uma bobagem tipicamente brasileira, que esconde temores quanto à inserção e sobrevivência profissional dos greduados. Desconheço país no mundo que exija diploma para o exercício do jornalismo. Na França, por exemplo, a lei considera jornalista todo aquele que tira a maior parte de seus proventos do jornalismo.
Jorge  Cortás Sader Filho, advogado/escritor (Niterói/RJ)
Enviado em 13/10/2008 às 1:03:55 PM

O jornalismo informativo deve ser exercido pelos que passaram por faculdade, e estão inscritos. Até muito tempo atrás, os melhores jornalistas eram quase todos advogados. Lacerda, Castelinho e Mário Martins, por exemplo, não fizeram o curso. São menores por causa disto? O mesmo se dá com o notável João Ubaldo. Mas todos foram colunistas. Ubaldo ainda é, e um dos melhores. Afinal, tratra-se do melhor escritor do país, atualmente. É preciso distinguir-se uma fato: jornalismo informativo é uma coisa, comentarista é outra, muito diferente.
Orestes  Ianuzzi, empresário (São Paulo/SP)
Enviado em 13/10/2008 às 12:07:59 PM

Excelente artigo, que traz luz ao contexto da profissão e torna ainda mais corroídos e surrados, como trapos velhos, os argumentos dos defensores do “diploma”. É bom repetir que a nossa Carta Magna de 1.988 não faz restrições à liberdade de expressão, da produção intelectual, qualquer que ela seja, em qualquer veículo, e se equipara a todos os países democráticos ocidentais, inclusive a grande maioria (senão todos) do bloco latinoamericano, onde não existe reserva de mercado aos “diplomados”. A única exceção é o Brasil. Também vale repetir que o Decreto famigerado é um entulho autoritário feito pela Junta Militar de 1.969 para controlar os Cursos de Jornalismo das universidades da época e as editorias dos grandes jornais. Os “sem diploma” daquele triste período de nossa história que tiveram a coragem de se inscrever no MTb para obterem “licença para se expressarem” foram também “inscritos” no DOPS, SNI, DOI-CODI e outros órgãos dos serviços de informação e passaram a ser controlados. Milhares não se inscreveram e não se “regularizaram” com medo do controle de opinião e expressão imposto pela ditadura. E muitos foram torturados e mortos, porque se insurgiram contra o controle da censura. Varrer esse entulho é o que se espera do STF.
Roberto  Ribeiro, Arqueólogo (Aracaju/SE)
Enviado em 13/10/2008 às 11:41:30 AM

A única questão que se levanta é: como diplomados em jornalismo vão ganhar dinheiro? Por isso a luta dos sindicatos e faculdades de jornalismo é garantir um mercado para determinadas pessoas que não sabem fazer outra coisa. Eu mesmo tenho doutorado em grego antigo, muitas vezes já achei que o governo deveria proibir pessoas de estudar grego antigo se elas não são sagazes o suficiente para não se dedicar a isso. O governo deveria ter me proibido de ter dedicado tantos anos a algo que não me dá camisa, ou então criar um cargo exclusivo de doutor em grego antigo. Ou não? O caso é todo e apenas esse: empregos para pessoas que sabem tão somente serem jornalistas. Empregos, empregos, empregos. Todo o resto é conversa mole.
Gilberto  Marotta, jornalista (salvador/BA)
Enviado em 9/10/2008 às 8:28:51 AM

O professor continua "fora de foco". Empresas jornalísticas só deveriam poder empregar JORNALISTAS. No caso dos blogs, desde que seja um blog pessoal e não use a propaganda de jornalismo ou jornalista, o cara escreve o que quiser sendo ele formado ou não. Da mesma forma, qualquer um poderia fazer um jornalzinho particular impresso e sair distribuindo, o fato de ser outro meio e mais fácil de disseminar, porque barato, não muda o centro da questão. Mais: a Internet é um meio novo, maravilhoso no que tem de potencial e terrível, de fato, no que traz de porcaria pela falta de critério na seleção de conteúdo. Natural: o leitor está aprendendo, vai se educar, com o tempo. Mas tirar as faculdades da jogada, eliminar a necessidade de uma formação melhor, só vai aumentar ainda mais a porcaria a que somos/seremos submetidos...
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


Arquivo

Navegue pelos meses usando
também as setinhas azuis.
Você encontra uma descrição do conteúdo dos tópicos, dia a dia.
   2009 
DSTQQSS
12357
910121314
151618192021
23
24
25262728
2930

Últimos posts
Um tesarac no jornalismo contemporâneo
Venda avulsa de jornalões brasileiros cai a índices surpreendentes
A difícil transição do discurso para a conversa, no jornalismo online
A internet cria uma nova unidade básica no jornalismo contemporâneo
Para que tanta informação?

Weblogs de referência
Atrium
PressThink
Contra a Clicagem Burra
Cyber Journalist
Buzzmachine
Holovaty
Intermezzo 
e-Periodistas
Editors Weblog 
Writing for the Web 
eCuaderno
Guardian OnlineBlog
Jornalismo e Comunicação
Transnets - Francis Pisani
Common Sense Journalism
Comunisfera
Contentious
CyberSoc
Behind the News
Ecosphere
Global Voices
Journalism Hope
Journalistic.co.uk
El Cuarto Bit
Social Media
Notes from a Journalism Teacher
MediaCitizen
News Dissector
Online Journalism News
Ponto Media
Rebuilding Media
Steve Outing
E-Media Tidbits
GJol
Periodismo Ciudadano
Pedro Doria
Laudas Críticas

Websites de referência
Carnegie Reporter
Columbia Journalism Review
Online Journalism Review
Media Center
Poynter Online
Online News Association
Creative Commons
Chasqui
Oxford Internet Institute
Panopticon - Facom - UFBA
OnlineJournalism.com

Textos de referência
*Abandoning the News
*History of online journalism
*Reputation Systems
*We the Media
*Como las audiencias están modelando el futuro de las noticias y la información
* Smart Mobs
Implicit Structure and the Dynamics of Blogspace
* Journalism under Fire
* Modelling the First Generation of News Media in the World Wide Web
* Buzz, Blogs and Beyond
* Towards professional participatory storytelling in journalism and advertising
* The Emergence of The Progressive Blogosphere
* We are the Web
* Civic Commons in Cyberspace
* Fixing Journalism
* Blogs, a Global conversation
* The Big Media Meets the Bloggers
* The Blogging Revolution
* The Hyperlocal Citizen Media